Sugestão de video: “cuidado com a neuro-bobagem”

No video Cuidado com a neuro-bobagem, Molly Crockett fala sobre alguns dos resultados da pesquisa sobre o cérebro humano.

Ela é uma neurocientista doutorada pela Universidade de Cambridge em 2011 e pergunta qual a influência de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, sobre o altruísmo a capacidade de tomar decisões. Crockett nos atualiza sobre a diferença entre as respostas que a neurociência oferece à população e as respostas que a mídia publica. Só por isso, já justifico a inserção do video aqui.

Mas esse vídeo apresenta, além disso, uma possibilidade de observar algumas diferenças entre o pensamento científico e o pensamento que anima o marketing.

Entre algumas das respostas de Crockett está a afirmação de que

os neurocientistas ainda não encontraram dentro do cérebro um botão “comprei a ideia”. Não sabemos dizer se uma pessoa está apaixonada ou mentindo, apenas olhando para uma ressonância do cérebro, e nós não conseguimos transformar pecadores em santos através de hormônios.

 

Porém, algumas empresas parecem se aproveitar de algumas das respostas e criar brechas por onde convencem seus consumidores de propriedades fantásticas em seus produtos, só porque trazem um desenho do cérebro no rótulo. Parece que um desenho do cérebro pode vender quase qualquer coisa. Crockett adverte:

Se alguém tentar vender pra você algo com um cérebro em cima … peça para ver a evidência. pergunte sobre a parte da história que não está sendo contada.

Traduzido por Francisco Dubiela, esse video tem legendas em língua portuguesa e faz parte das conferências TED.

O vídeo está no link abaixo:

 

 

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Calvin e o sanduíche de lula

Trad. Demirse Ruffato

Trad. Demirse Ruffato

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Perfil de John Carey no The Guardian

VALORES RELATIVOS

John Carey: jornalista e acadêmico; conformista e ainda assim outsider engajado.

John Carey: jornalista e acadêmico; conformista e ainda assim outsider engajado.

Beneficiário de bolsas de estudo, guri de origem comum, John Carey tem uma destacada carreira em Oxford, mas ataca os rituais elitistas da universidade. Ele é mais conhecido por sua crítica literária incisiva e seus livros sobre Dickens e Donne. O seu último livro polêmico defende que a maioria não deveria ter que pagar pelos prazeres artísticos de uma minoria erudita.

por Lucasta Miller

The Guardian, sábado 4 junho 2005

Tradução Demirse Ruffato

John Carey escreveu sobre Sir Walter Scott: “A maioria dos grandes escritores é duas pessoas, se não mais: a arte deles nasce das rachaduras em suas personalidades”; a energia imaginativa de Dickens, segundo Carey, deriva da “capacidade de casar dois pontos de vista diametralmente opostos ao mesmo tempo”, enquanto “inconsistência” e “lealdade heterogênea” enriquecem o pensamento de George Orwell, tornando-o “imprevisível e desafiador”.

É interessante que tantas vezes Carey bata nessa qualidade particular dos escritores que ele admira, porque ele é um homem de profundas contradições. Como acadêmico, por exemplo, ele é tão colado a Oxford que não a deixou desde que foi para St John’s College como estudante de graduação em 1954; e mesmo a sua casa de campo em Cotswolds fica só a meia hora da Biblioteca Bodleian. No entanto, o ensaio mais famoso de sua encarnação como jornalista foi intitulado “Down with Dons”. Como presidente do comitê Man Booker Prize[1] (duas vezes), e do recém inaugurado Man Booker Internacional – um prêmio bienal no valor de £ 60.000, para qualquer autor do mundo cuja obra esteja disponível em inglês – ele personificou publicamente a noção de que a literatura pode ser avaliada competitivamente; ainda assim, seu livro mais recente What good are the arts? [sem tradução em português] publicado nessa semana, é amplamente devotado a expor a falácia intelectual dos juízos de valor estético.

O que mais impressiona ao se encontrar com Carey é a disjunção entre a sua voz no texto impresso e a voz ao vivo. Como crítico literário chefe do Sunday Times por quase três décadas, ele expressa seu ponto de vista em termos tão fortes que um dos autores deixou de falar com ele por 14 anos e outro se recusou a cumprimentá-lo em uma festa. “Você nunca deve ter medo de perder um amigo”, diz ele. “Você deve dizer a verdade. Se alguém disser algo que você considera insensato você deve deixar isso claro”. Essa incorruptibilidade cristalina envolveu-o em uma briga com Ted Hughes a respeito de Shakespeare and the goddess of complete being [sem tradução em português], uma crítica de Hughes que Carey considerou “nonsense”. Mas Carey amolece quando lembra que, pouco antes da morte de Hughes, recebeu dele uma carta conciliatória “muito comovente”.

Esse lado mais gentil é o que domina quando você se encontra com Carey. Afetuoso e paternal, ele procura consenso e pontos de contato em vez de desacordo, além disso, nos desarma com sua capacidade de rir de si mesmo. “Há”, segundo seu amigo e companheiro oxfordiano o historiador Sir Keith Thomas, “dois John Carey. Há o crítico que pesquisa a farsa e as fraquezas humanas e há também o totalmente honesto John, do tipo “como estão as crianças?” que é decente, amável, obediente, leal, generoso, meio conformista. Todo o veneno sai em sua escrita. Assim, na vida privada ele é capaz de ter a mais doce das relações humanas.”

Ao que parece, Carey é tão capaz de compaixão quanto de desprezo, algo que inspira lealdade intensa de ex-alunos, como Nigel Smith, hoje professor na Universidade de Princeton. “Ele tem um efeito surpreendente sobre as pessoas. Inicialmente, é assustador por causa de seus padrões muito elevados, mas muito construtivo como tutor e mentor, genial e carinhoso. Guardei todos os comentários que ele me mandou, porque sempre diz algo de valor e não tem medo de dar conselhos pessoais. Ao sustentar polêmicas por escrito Carey é assustador, pois é muito articulado – feito Oscar Wilde, só que com botas de cano alto – e acredita que existam pessoas lá fora que mereçam levar pancada. Mas, sabe em quem pode bater e em quem não pode; ele jamais se passaria com alunos.”

Carey é amplamente admirado por sua consciência de professor. Em ambas as faculdades, Keble (1960-1964) e St. John’s (1964-1975), onde lecionou antes de se tornar Merton Professor[2] de inglês em 1976, ele foi responsável pela transformação da disciplina: do baixo status que tinha passou a atrair os mais brilhantes estudantes universitários. Ele se aposentou em 2001.

Seus dois livros sobre autores vitorianos, Violent Effigy: A Study of Dickens’ Imagination (1973) [A Efígie violenta: uma análise da imaginação de Dickens, Ars Poetica, 1992] e Thackeray: Prodigal Genius (1977) [sem tradução em português] começaram como palestras para uma felizarda geração de universitários. Quando ele leu literatura inglesa como aluno de graduação na década de 50, o programa terminava em 1832. Foi a decisão da faculdade em estendê-lo até os séculos 19 e 20 que levou Carey a produzir esses livros.

Eles tratam dos assuntos com uma linguagem humana, despretensiosa, um pouco convencional e inteligentemente furiosa. Desinteressado de grandes teorizações, Carey conecta vidas e obras para construir um retrato de como a imaginação idiossincrática dos romancistas funcionava. Esses trabalhos de crítica são escritos com tal verve e fluência que preenchem completamente o que Carey considera o dever de qualquer escritor: “fazer o leitor querer virar a página”. Há algum truque de prestidigitação que ele usa para alcançar esse ímpeto em livros tão cheios de análise minuciosa e citações detalhadas. Ele lê atentamente, é fascinado pelas imagens, e nos dá o panorama através de escolhas incisivas de exemplos concretos do texto. Ele é também um opinativo desavergonhado, tendendo a divertir o leitor. (As crianças angelicais da ficção de Dickens, por exemplo, são “anões antissépticos, purificados… muito semelhantes aos modernos anões de jardim”.) Pouco comum na crítica acadêmica, ele transmite uma sensação real do prazer da leitura e há uma clareza no seu modo de construir as frases que reflete sua admiração pela prosa de Orwell.

A Efígie violenta investiga o modo como Dickens, que viu a si próprio como “o grande profeta das acolhedoras virtudes caseiras”, nunca se reconciliou com “o fato da violência e da destruição terem sido os mais poderosos estimulantes para a sua imaginação”. Conflito interior – mas de natureza obscura – é também o assunto de John Donne: Life, Mind and Art (1981) [sem tradução em português]. Centra-se na apostasia do poeta da Renascença, sua rejeição ao catolicismo fora-da-lei pelo qual seus amigos e família sofreram tortura e prisão, em favor da religião já estabelecida que pudesse trazer-lhe segurança pessoal e progressão na carreira. Carey investiga a maneira pela qual as ansiedades religiosas de Donne permeiam o imaginário de sua poesia de amor mundano. Um posfácio, acrescentado em 1990, segue algumas das críticas mais recentes a Donne, expondo a pretensão de um pós-estruturalismo fashion cuja série de reductiones ad absurdum fazem você querer gargalhar. (“Nada”, diz ele, “é tão poderoso como o riso para destruir.”)

Quando deflagrada pela indignação, a escrita de Carey exibe níveis quase anárquicos de energia. Ainda assim, esse impulso é contraposto por um desejo de ordem, exibido por sua veia, não só crítica, mas erudita. Aqueles que o conhecem apenas de suas resenhas comunicativas e afiadas, podem se surpreender ao saber que ele passou os anos 60 na atividade exclusiva de traduzir o maciço tratado teológico de Milton, De Doctrina Christiana, do latim. Ele também produziu uma edição dos poemas curtos de Milton. Esses eternos monumentos ao saber apontam para um rigor na sua natureza que também é evidente, segundo quem já a presenciou, em seu belo jardim de hortaliças, onde as cebolas são dispostas em fileiras regimentais com todos os talos apontando na mesma direção.

A obstinação de Carey homenageia o escritor DJ Taylor, cuja biografia de Thackeray foi muito influenciada por ele, e que se sentou como jurado literário sob a presidência de Carey: “Ele trabalhou mais do que qualquer um de nós. Leu cada livro do começo ao fim e fez anotações pormenorizadas sobre cada um.” Esse senso de meticulosidade e dever nos ensina sobre a postura de Carey quanto às resenhas: “Eu nunca fiz a resenha de um livro que não tivesse lido completamente, na verdade, sobre o qual eu não tivesse feito anotações.”

Muito da acidez de Carey foi deflagrado, ao longo dos anos, contra o esnobismo e a pretensão intelectual. O torpedo “Down with Dons” [s.t. em português, algo como Abaixo os Dons], artigo escrito em 1975, não mirava na erudição acadêmica, mas na específica arrogância de alguns medalhões da escola pública, como o lendário estudioso de clássicos, Maurice Bowra, da Oxford, a quem Carey atacava por suas “suposições pedantes e resolutas segundo as quais o conforto e o prazer das pessoas comuns são de pouca relevância quando comparados com a necessidade de propagandear a superioridade de alguém”. Carey e sua defesa dos valores convencionais contra os da elite intelectual e social, tema recorrente de seu jornalismo nos anos 70 e 80, encontra a expressão máxima em seu livro The Intellectuals and the Masses (1992) [Os Intelectuais e as massas, Ars Poetica, 1993]. Aqui, em estilo tipicamente polêmico, ele argumenta que a linguagem premeditadamente “difícil” do modernismo literário Inglês do século 20 foi uma conspiração anti-igualitária para se esquivar do leitor comum.

Recentemente, ele voltou sua atenção para uma forma diferente de exclusividade, a aparente relutância dos leitores britânicos em se envolver com obras traduzidas. “No início do século 20 a moda era preferir literatura russa ou francesa (Proust, Dostoievski) antes do produto caseiro”, explica. “Agora, nós parecemos ter ido ao outro extremo e nos tornado leitores ilhados”. Uma palestra a ser proferida em Edimburgo na cerimônia de premiação do Man Booker International, no final deste mês, vai expandir esse tema; e Carey espera que o prêmio encoraje os editores a publicarem mais ficção estrangeira.

Carey diz que seu antielitismo deriva de sua própria formação “comum”. Filho do contador Charles William Carey, ele nasceu em 1934, em Lonsdale Road, em Barnes, um subúrbio monótono de Londres, abalado durante a guerra, quando uma bomba incendiária aterrissou no jardim. Carey se lembra vividamente daquela luz ofuscante atravessando as cortinas. Sua família sendo removida: “Depois de um ataque aéreo especialmente ruim, eu disse ao meu pai, ‘ainda não estamos mortos, papai?’ – acredita? Que frase dickensiana – e ele não aguentou ter que nos manter lá, então pediu demissão de seu emprego e nos mudamos para um vilarejo perto de Nottingham”.

De volta a Londres depois da guerra, Carey frequentou Richmond e a East Sheen Grammar School, onde foi inspirado pelo professor de inglês a ler o tipo de poeta – Arnold e Chesterton – de quem os esnobes modernistas de Bloomsbury teriam zombado. Carey e suas duas irmãs foram os primeiros da família a ir para a universidade. Porém, seu pai era um leitor apaixonado e manifestou a esperança de que seu filho pudesse um dia escrever um livro sobre Dickens. O fato de John Carey ter finalmente cumprido esse desejo paterno, sem dúvida lhe dá prazer.

Muitos dos valores de Carey podem ser rastreados desde sua infância: seu puritanismo, sua ética no trabalho, sua devoção à família. Eventualmente, ele provoca uma comparação à figura do “Detestável de Tunbridge Wells”, como quando ele se indigna, em seu novo livro, com os crachás distribuídos por Yoko Ono na Bienal de Liverpool, apresentando “um peito nu de mulher e uma virilha feminina com pelos púbicos”. O que ele não gosta é da arrogância com que os “plays” e os intelectuais acreditam não estarem sujeitos às regras normais de decência humana. Ele acha o hedonismo de classe alta especialmente irritante e ilustra isso com uma história assustadoramente engraçada: “Meu primeiro emprego de professor foi em 1958-59 na Igreja de Cristo. Era chorar o leite derramado – impressionante. Os alunos eram de um estrato social completamente diferente. Eu costumava passar o tempo calculando quantos salários dos meus custavam aquelas roupas que eles vestiam. Eles tinham uma tradição, segundo a qual você ia para Peckwater Quad[3] e tentava quebrar o máximo possível de janelas da escola, antes de ser pego, e esperava quebrar mais do que seu pai ou avô já tinham quebrado. Eu tinha um aluno – gente boa – que andava pelo pátio da escola naquela noite e uma garrafa de água tônica voltou pra ele e o cegou de um olho. Surpreendentemente, ele nunca reclamou ou culpou alguém. Aquilo me fez ver o quanto era poderosa aquela cultura”.

As coisas em Oxford, Carey admite, mudaram para melhor, em parte como resultado da admissão de mulheres nas faculdades anteriormente só para homens, em parte devido ao sistema abrangente (embora ele tenha mandado seus dois filhos para uma escola privada, Abingdon, porque pensou ser a melhor opção à escola gramatical antiquada). Porém, ainda acha que há espaço para melhorias. Apesar de se considerar um “conservador” em outros assuntos, ele continua a acreditar, por exemplo, que os jantares rituais das faculdades de Oxford devam ser interrompidos. Em “Down with Dons” ele ataca a comilança e a bebedeira à mesa[4], com um zelo puritano que não teria desonrado o seu herói literário, Milton, em sua polêmica contra o sacerdócio inchado.

Provavelmente o desconforto de Carey com a desigualdade e sua tendência a idealizar os valores periféricos de seus pais abstêmios estão enraizados em experiências mais sutis do que simples ressentimento ou chauvinismo de classe. Longe de ser idílica, a periferia de sua infância, com suas roupas de domingo e assados de domingo, abrigou tristeza e luta. Em uma de suas passagens comoventes que escreveu em 1983, relembra que ele e seu pai costumavam visitar o Sr. Perry, depois da igreja, o curador da rede de água das redondezas, para admirar o jardim; e descreve seu orgulho de criança ao perceber que ele e o pai formavam “uma dupla” e como “nessa viagem especial meu irmão e irmãs nunca nos acompanhavam”. Mas ele também recorda como a Sra. Perry sempre se distanciava, e hoje reflete com a contemplação adulta que na época lhe faltava sobre o quanto a presença daquele rapazote seria para ela uma lembrança dolorosa de não ser mãe.

Como ele revela durante o almoço, a família dele não era tão simples como se poderia imaginar, na verdade, pelos padrões cruéis da época, não eram considerados “normais”, porque seu irmão mais velho tinha problemas físicos e mentais. Numa cultura em que essas coisas eram consideradas tabu, isso significou para os Carey viverem isolados, raramente convidando alguém à casa deles. E foi apenas quando ele teve seus próprios filhos, diz ele, que começou a compreender o que aquilo tudo devia ter sido para seus pais, especialmente para sua mãe, Winifred, que dedicou a vida a cuidar do filho mais velho, William James, conhecido como Bill. Um profundo senso do heroísmo moral de sua mãe, aparentemente subjaz sua recusa em acreditar que pessoas cultas são melhores, que “literatura nada tem a ver com virtude”. Sua mãe, por exemplo, não gostava de Shakespeare. “Me lembro de assistir Otelo na televisão quando adolescente. Eu era louco por ele – costumava fazer os monólogos na frente do espelho. Minha mãe só dizia: ‘Não é grande coisa.’ Bem, eu não posso dizer que isso faz dela uma pessoa pior do que eu em qualquer sentido.”

Carey não tinha falado publicamente sobre seu irmão antes. Mas as circunstâncias problemáticas de sua infância talvez sugiram a fonte de alguns conflitos em sua personalidade, especialmente sobre a maneira de um homem aparentemente conformista abraçar tantas vezes o papel de outsider engajado.

Quando foi publicado, Os intelectuais e as massas foi criticado por ir longe demais na aproximação entre os esnobes intelectuais britânicos e a ideologia fascista, como se o modernismo levado à sua conclusão lógica, automaticamente conduzisse ao nazismo. O crítico acadêmico Stefan Collini, por exemplo, atacou “o fôlego tendencioso” de Carey em ver “comentários ácidos de Virginia Woolf sobre balconistas de loja ou de escárnio de Eliot sobre datilógrafos como parte daquele desdém intelectual em relação às pessoas comuns, que atingiu seu ponto culminante nos campos da morte”. A idéia de que algumas pessoas deveriam ser consideradas mais valiosas do que outras – ou de que a cultura deveria ser dividida em elevada e rebaixada, ou a sociedade em classes altas e baixas – obviamente em Carey causa quase dor física. “Eu acho que a distribuição de riqueza é repugnante,” diz ele. Por um lado, acredita apaixonadamente na igualdade moral de todos e, como meritocrata, acha que todos deveriam ter uma chance de autoprovação independente da bagagem. Mas talvez, em algum ponto, sua chacina contra o elitismo também reflita uma culpa irracional relativa ao fato de que ele e suas irmãs de sucesso – uma tornou-se diretora, outra gerente sênior de Barclays – nasceram com maiores chances de vida do que o irmão deles.

De certa maneira, o novo livro de Carey brotou de Os intelectuais e as massas. Alguns de seus temas centrais – como a questão de saber se a “arte elevada” pode ser considerada superior à “cultura de massa” – reemergem. Mas onde o livro anterior oferece uma crítica muito detalhada do romance inglês do final do século 19 e início do 20, o novo é muito mais generalizado na abordagem. Na primeira parte, Carey assume uma posição relativista inflexível sobre estética, negando a possibilidade de valores absolutos. Não há nenhuma maneira de determinar o que constitui uma obra de arte – Carey conclui que seja simplesmente algo que alguém definiu assim – e avaliar tais obras é uma atividade puramente subjetiva. Um por um, os vários argumentos ao valor das artes só aparecem para serem amputados. A ciência não pode nos ajudar, e, na ausência de Deus, nem a religião.

Seu tom é altamente polêmico e Carey espera que o livro seja controverso “já que toca em tantos interesses pessoais no mundo das artes, e as pessoas gostam tanto de pensar que seus gostos são verdadeiramente superiores”. Ele diz que depois de Os intelectuais e as massas ter saído, inicialmente ficou alarmado com as criticas ruins, mas depois se deu conta de que estava afinal angariando muita atenção. E ele curte o debate, pois “só ser malhado não é nada divertido”.

Em algumas partes, o livro novo parece muito calculadamente provocativo, especialmente quando muda de questões metafísicas para políticas. No que diz respeito ao financiamento das artes, por exemplo, Carey toma de assalto a ópera, atacando John Tusa, diretor do Barbican Arts Centre, por argumentar que a excelência dessa forma de arte “difícil, exigente” precisa de apoio estatal. “O que tem de tão difícil sentar em bancos de pelúcia, ouvir música e cantar?” trovoa Carey, teimando em não olhar para as obras reais. “Ser servido no bar, no intervalo, frequentemente requer um esforço, é verdade, mas mesmo assim, que dificilmente se qualificaria como difícil comparado com um dia de trabalho da maioria das pessoas. Os beneficiários do entretenimento corporativo, bem-alimentados e bem-vestidos, deixando Covent Garden após um show… não parecem como se tivessem sido submetidos a exercício árduo, físico ou mental.”

É uma surpresa descobrir que Carey de fato gosta de música clássica. Os dois filhos dele foram coristas na escola de coro New College Choir School. Ele adora La Traviata e amou o filme Billy Elliot, em que o jovem herói-bailarino acaba no palco do Royal Opera House. O que, explica, o leva a sondar Covent Garden, é o “luxo”. Ele também acha errado que a maioria pague pelos prazeres de uma minoria erudita. Quando não se tem nenhuma maneira de provar que a chamada grande arte tenha algum valor transcendental, Carey acha, fica difícil argumentar que se deva disponibilizá-la à custa de impostos do contribuinte, já que na opinião dele, ela não oferece benefícios morais ou espirituais que sejam comprováveis à sociedade. Isso o leva a questionar o subsídio estatal que permite a National Gallery não cobrar entrada.

Carey já começa seu livro What good are the arts? anunciando que vai deixar a religião de fora dessa equação. É a ausência de Deus que, em última análise, o leva a negar a possibilidade de haver valores absolutos em estética, e mesmo em ética. “Uma vez que a crença em Deus seja removida, questões morais, como as estéticas, tornam-se infinitamente discutíveis.” Ele não diz quando perdeu sua fé, mas seus pais, diz, eram profundamente religiosos; na sala deles predominava um crucifixo enorme e ele se lembra do pai ajoelhado ao lado da cama orando pela manhã e à noite.

Mas quando, na segunda metade do livro, ele vai para sua defesa pessoal da literatura como força positiva, fica impossível não se sentir puxado em outra direção. Intelectualmente, ele é inflexível no seu relativismo. Mas fica a sensação de que, emocionalmente, ele quer desesperadamente que Rei Lear seja melhor do que Coronation Street e acredita que a leitura de literatura possa ser uma atividade educadora moralmente, por causa da maneira como emancipa a imaginação dos leitores e emprega a razão deles. Uma das seções mais persuasivas descreve o efeito moral positivo sobre presidiários jovens quando são incentivados a ler O senhor das moscas de William Golding (um autor admirado por Carey há muito tempo, e cuja biografia oficial ele foi recentemente contratado para escrever).

Apesar do fato de apenas citar Ruskin para ridicularizar a base religiosa de sua estética, é difícil não encontrar algo de vitoriano na mentalidade de Carey. Assim como Ruskin, ele está preparado para lidar com idéias conflitantes e grandes questões; e tende a escrever para um público comum, bem como o faz em seu trabalho jornalístico. Seus argumentos em favor das artes e ofícios amadores, como forma de incentivar o “respeito próprio” dos indivíduos, parecem mais do tipo William Morris (apesar da contrariedade típica com que manifestou seu “ódio” a Morris por escrito). Essa fé no autodidatismo pela arte não é mero palavreado. Carey toma aulas de gravura nas modalidades metal e água-forte, e também cria abelhas.

Uma das coisas mais atraentes sobre Carey é a sua devoção à família. Ele conheceu sua esposa Gill numa palestra quando ambos eram estudantes e se casaram em 1960. Ela também se tornou professora de inglês (na Manchester College, em Oxford), parece que discutir literatura sempre foi central para a sua intensa relação – eles esperaram 14 anos para terem filhos – e Carey a considera sua melhor crítica. Ela publicou um livro sobre Shelley. Ambos os filhos foram alunos de graduação em Oxford. Leo, 31, lê e é editor na New Yorker. Thomas, 27, era um estudioso dos clássicos e se tornou advogado.

É, possivelmente, por sua família ser o foco de sua vida que Carey se mantenha levemente distanciado dos dois mundos em que ele faz sua carreira. No que diz respeito a Londres literária, está “bem feliz por não pertencer”, e tende a não ir a vários lançamentos de livros – embora um mês movimentado na sequência da publicação de seu novo livro inclua sua presença no The Guardian Hay Festival esta tarde; um debate no South Bank Centre em Londres na quarta-feira; e uma palestra em Edimburgo, dia 27 de junho. Em Oxford, ele não saboreia de fato a vida acadêmica, e prefere que o centro do poder mude das faculdades para os vários assuntos dos sujeitos das faculdades. Talvez Carey seja insociável porque ele é tão único. Mesmo com todo o seu apego aos valores comuns, não há nada de comum nele.

* *

John Carey – a vida num relance

Nascimento: 5 de abril de 1934, Barnes.

Escolaridade: Richmond e Grammar School East Sheen; John College St, Oxford (MA, PhD).

Casado: desde 1960 com Gillian Booth; dois filhos, Leo e Thomas.

Posições acadêmicas em Oxford: 1957-1958 estudioso sênior em Merton; ’58-59 conferencista na Christ Church; ’59-60 pesquisador júnior em Balliol; ’60-64 professor em Keble; ’64-75 professor em St John’s; ‘76-01 Merton Professor of English.

Livros:

1973 – The Violent Effigy: A Study of Dickens’ Imagination;

1977 – Thackeray: Prodigal Genius;

1981 – John Donne: Life, Mind and Art;

1987 – Original Copy: Selected Reviews and Journalism 1969-1986;

1992 – The Intellectuals and the Masses;

1995 – Faber Book of Science (ed);

1999 – Faber Book of Utopias (ed);

2000 – Pure Pleasure: A Guide to the Twentieth Century’s Most Enjoyable Books;

2005 – What Good Are the Arts?

*What good are the arts? é uma publicação da Faber, por £12.99. John Carey aparece hoje no Guardian Hay Festival, às 2h30 da tarde. www.hayfestival.com


[1] Prêmio de £5O,OOO para o melhor romance escrito em língua inglesa e publicado no Reino Unido. (N.T.)

[2] Merton Professor é uma honrosa posição na cadeira de Literatura Inglesa (desde 1914) numa das Faculdades da Universidade de Oxford, a Merton College, que data do século 13 (N.T.)

[3] No caso de John Carey, Peckwater Quad era um prédio antigo em Oxford, no formato de quadrilátero cheio de janelas. (N.T.)

[4] No original high table: mesa mais alta para convidados de honra. (N.T.)

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Reflexões sobre um clicador

Para Bruna Bolson e Márcia Dotto, minhas colegas de fotografia

O fotógrafo é esse dono de olho que se encanta com a luz, com uma cor que ele vê ou imagina e quer capturar. Ele já não é apenas uma pessoa, é uma coisa, um caçador, é um amontoado de elementos, de lentes, de tiras ao redor do pescoço, de líquidos fedorentos, de teclas, de comandos.

foto: Bruna Bolson

Ele é o espírito que escolhe o ângulo, que clica. Ele não se furta de clicar por tudo, e finaliza. Fotografia é prática, técnica, coração e câmera. É virtude virtual. É plástica, textura, é arte sim, e arte é um direito de todos. É barata, chinelona[1], e também sublime, comovente, sofisticada. Quem está aqui, está lá. É também ritmo, encosta várias vezes na música, afinal não se pode perder o timing. Juntos, olho e arte são assim: democráticos[2], divertidos e diabólicos.

Fotógrafo é o cara que tira uma foto de um milho que tu tem vontade de comer. Depois, tu tem vontade de comer a foto, (hehe!). Não há milhas e milhas de distância entre um fotógrafo e outro. Eles não estão no caminho da separação, estão na mesa, são convidados à partilha e à comunhão.

O fotógrafo exerce crítica. Autocrítica. Isso também passa por selecionar. É ele que seleciona os cliques para postar no facebook, ou assemelhados, para às vezes imprimir, dar de presente, para se aparecer, para vender, ou o que quer que seja.

foto: Bruna Bolson

Se ele não come fotografia, ele lê fotografia. Sim, fotografia também a gente lê. Ler é olhar e interpretar e, ainda, isso tudo passa, muitas vezes, por se confundir. Sem susto, pois nem tudo é só mar de rosas. Muitas vezes uma imagem é triste e linda ao mesmo tempo. Linda e triste, por algum motivo estranho e indescritível. O fotógrafo é esse cara que encara o paradoxo, que lê as fotos dos amigos, dos familiares, dos colegas, dos professores, dos profissionais, dos biólogos da National Geographic, enfim, de todos. Ele lida com as ideias. Ele curte algumas, comenta outras e troca muitas sugestões, tá tudo lá… nos comentários, olha bem, leia bem… sim, porque o fotógrafo escreve também, anota e pensa muito.

Ele muitas vezes se compara e se queixa.  “Teu problema é equipamento?”, disse Adolfo Bloch para um fotógrafo que se queixava, e continuou “te dou uma caneta de ouro e tu me escreve um romance”[3]. De que vale uma caneta de ouro pra quem não consegue narrar?

Falando nisso, um romancista famoso também foi fotógrafo: Charles Lutwidge Dodgson. Não lembrou? E agora: Lewis Carroll. Ainda não? E agora: autor de Alice no País das Maravilhas. Ah! Agora tu sabe de quem eu falo, não é? Pois é, o cara nasceu em 1832 na Inglaterra, foi matemático, lógico, fotógrafo e romancista, e faleceu em 1898. Era professor em Oxford. Sabia que ele fez as fotos[4] da Alice Lidell? Ele e a fotógrafa britânica Julia Margaret Cameron (1815-1879). Alice foi a menina, filha de um amigo do Carroll, que pediu a história por escrito para ele.

Então, se tu faz isso tudo, ou 75% das anteriores, tu tá mergulhado até o pescoço, tá com um pé na cozinha, tá sacando do babado, tá na área, nem vem que não tem, tu é fotógrafo também.

Bem-vindo pra cá da cerca!

foto: Márcia Dotto


[1] Adjetivo que vem de chinelo, um calçado macio e confortável.

[2] Sem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários, regime em que há liberdade de associação e de expressão.

[3] Quem conta essa estória é Jô Soares na entrevista com o fotógrafo Walter Firmo. Disponível aqui: < http://programadojo.globo.com/videos/t/videos/v/walter-firmo-e-um-dos-mais-premiados-fotografos-no-brasil-e-no-exterior/2159761/>.

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Hans Rosling: religião e o número de babies no mundo

Claro que esse assunto é trazido a tona pelo senhor mais jovem e vivaz da atualidade: Hans Roling. Ele é o estatístico que faz apresentações de dados e resultados de pesquisas soarem como uma partida de futebol. Seja qual for a plateia, ele consegue o mesmo resultado: interesse, olhos vidrados e risadas espontâneas.

Hans Rosling começa a sua fala admitindo que o assunto é delicado e, pra piorar, é um assunto muito amplo: religião. Então, por essas razões, diz ele, que vai procurar limitar-se ao máximo falando apenas sobre os links entre religião e … sexualidade (!). Ora, já arranca os primeiros risos da audiência. Falar de religião e linkar com sexualidade, tudo bem. Mas chamar isso de limitação…só pode ser uma piada. E, de fato, é sim uma brincadeira desse senhor de humor inteligente e ousado. Pois, afinal, ele supera todos os limites, culturais, linguísticos e religiosos, para falar de um assunto simplesmente vital: a população do planeta.

Para surpresa dos que esperam que ele vá fazer a tradicional conexão entre gente religiosa/pobre/cheia de filhos…surpresa. Ele demonstra que independentemente da religião, cristãos, islamicos, orientais, e independentemente da renda per capita anual, o número de crianças por mulher, ao longo do tempo, está diminuindo.

Então porque o título relacionando religião e bebês? É para mostrar a conclusão a partir de dados estatísticos, segundo os quais todas as religiões estão lidando muito bem com as adaptações que devem ser feitas entre os fiéis e o mundo em que vivemos. A religião não é um problema. O problema é a mortalidade infantil, de novo. Que paradoxo. Mas observem o momento em que o senhor Rosling explica a relação entre países com alta taxa de mortalidade infantil, (uma a três crianças por mulher) e o alto número de nascimentos. Como se uma nova criança compensasse a outra morta. Um fenômeno. Uma tristeza.

Hans Rosling é um defensor do bem-estar infantil, do planejamento familiar, do bem-estar social e acima de tudo do controle populacional. Há quem diga que isso é perigoso. Mas vejamos, por um momento, por este ângulo: a população mundial está se encaminhando para os 10 bilhões de pessoas no planeta. Não seria habilidoso para nós,  pelo menos termos essa consciência? Digamos, uma consciência do inevitável?

E, além disso, a exposição do assunto já vale a pena por um dado: nos anos sessenta, no mundo, era preciso ser cristão rico para ter poucos filhos. Mais risos. Nos anos sessenta! A geração que faria, logo adiante, toda a defesa do amor livre e do bixo-grilismo que estava na filosofia de vida das chamadas “consciências expandidas”. É diversão garantida essa apresentação.

Não acreditem. Assistam o cara. Minha sugestão é o video linkado a seguir:

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